お久しぶりですね!

Olá, para você que passou por este blog há muito tempo atrás. Ou para você que passou por aqui por mistério do destino.

長い歳月を経ったこのブログに来なかったあなたへ、それとも、ひょっとして今ここを通っているあなたへ、お久しぶり!

Primeiramente eu gostaria de me desculpar por tamanho descuido. Se não me engano, faz mais ou menos  6 anos que eu fiz este blog como uma ferramenta de trabalho para divulgar traduções, trabalhos acadêmicos e o meu próprio trabalho.

まず、このブログの面倒をしていなくてごめんなさい。自分の翻訳、論文や家庭教師仕事を見せられるように間違いなければ6年前ごろこのブログを作った。

Infelizmente eu deixei ele de lado devido as desilusões da profissão, falta de tempo e outros problemas. A vida não é fácil pra ninguém e às vezes temos que dar a volta ao mundo pra entender o que queremos e como fazer. Bem, eu dei a volta ao mundo de verdade! Não da maneira como eu queria (ainda não sou rico), mas foi uma experiência que não vou esquecer.

残念ながら、時間がなかったし、問題があったし、それに仕事でがっかりした。人生は誰にも優しくない奴だもんだが、何を手に入れたいかとそうできる方法をわかるように時々世界を駆け巡らなければならない。じゃ、ちょっと本当に世界を駆け巡ったよ。望んだとおりじゃない(おかねもちになるまではまだ遠い)。が、忘れいない豊かな経験だったよ。

E cá estou eu de volta, cheio de novidades e forças renovadas! Pronto não só para trabalhar nesse blog como ele realmente deveria ser (tirando a parte mais acadêmica) como também para expandi-lo para além.

元気で、新しいものをいっぱい持って、また帰ってきた!(大学論文を除いて)思ったによるブログのことをもっと作るためだけじゃなくて、これを広くするように準備だ。

Um dos frutos da minha viagem é que, além de aperfeiçoar meu japonês, eu aperfeiçoei meu inglês também. Outro fruto também foi que aprendi muito a respeito de ensino de línguas no meu curto tempo em Dublin e gostaria muito de aplicar aquilo que aprendi aqui.

私の日本語を磨く上に、旅行の結果の一つは英語も磨いた。他の結果はダブリンにいた短い時間間外国語の教え方についてたくさん習った。それを適用するつもりだ

Além disso, pretendo trabalhar muito com textos nos três idiomas (inglês, japonês e português). Para isso, vou pesquisar sobre determinados assuntos e escrever sobre eles para que você, querido leitor, possa praticar um pouco em cada idioma e saber mais sobre qualquer coisa.

それに、英語と日本語とポルトガル語の分を使うつもりです。そのため、いろんな課題を調べた後、可愛い読者のあなたによまれるようにその分をおいておく。

Também quero falar muito sobre técnicas de aprendizagem ou ensino, para que você ai de casa possa estudar mas eficientemente. Claro, também pra fazer meu jabá, né.

同じように、あなたがうちでもっと効果的に勉強できるように教え習い方法について話したい。もちろん、私のの仕事も広告するためね。

Se você já tinha gostado do meu site e não tinha mais esperança, regozijai-vos! Se você passou por aqui agora, fica mais um pouco que te sirvo um tea e um okashi…

じゃ、もしこのサイトを気に入ってもう絶望した場合、お喜び!もしひょっとして今ここをとおっているなら、もう少しお待ち、ティーとお菓子を遠慮せずに・・・

Mata ne!

またね!

Análise e Tradução de “A carta dentro do barril de cimento” de Hayama Yoshiki

Este foi o meu trabalho apresentado no IV Happyoukai, realizado pela Associação de Professores de Língua Japonesa do Estado do Rio de Janeiro (Kyoushikai), no dia 16/07/2011.

Espero que gostem

Tradução e análise de ‘A carta dentro do barril de cimento’ de Hayama Yoshiki

Introdução

            O presente trabalho visa, antes de tudo, a divulgação da cultura japonesa fora da visão tradicional ocidental que vê o Japão como um país místico e distante, embora avançado tecnologicamente e bem sucedido nos negócios. O primeiro intuito neste artigo é, então, de apresentar o pensamento japonês na forma literária, no seu pensamento crítico e social de se expressar para que seja possível uma aproximação e identificação com o pensamento brasileiro. É uma intenção maior que a capacidade desse artigo pode comportar, no entanto é um projeto a ser completado com a sucessão de outros trabalhos deste autor.

            De acordo com a primeiro objetivo, visa-se também apresentar mais profundamente outro campo da literatura japonesa, que passa desapercebido pelo foco em autores mais conhecidos internacionalmente. A chamada Literatura Proletária ainda é pouco conhecida, e retrata uma face do Japão recém inserido no mundo capitalista tendo que conviver com contradições na qual o operário simples tem o papel mais importante e ao mesmo tempo mais esquecido.

            Como último objetivo, faz-se necessário para que esta literatura seja conhecida acesso a um público maior do que aqueles que possam ler diretamente em língua japonesa. Por isso, foi feita uma tradução do original em língua japonesa, disponível através Aozora Bunko, biblioteca virtual que disponibiliza livros gratuitamente, para o português brasileiro.

Literatura Proletária: pelo operário e contra a opressão.

            A Literatura Proletária surge logo após um período relativamente pacífico e curto, a Era Taishou (1912-1926), depois 30 anos de intensa abertura a economia e cultura do mundo ocidental, que encaminhava o Japão para o mundo moderno (era Meiji 1868-1912). Ela aparece em um período de forte militarismo e opressão que levará a nação nipônica a uma participação muito forte durante a Segunda Guerra Mundial, a Era Shouwa (1926-1989).

            Na Era Taishou, observamos a relativa prosperidade interna do Japão e a sua forte posição conquistada frente às grandes potências internacionais após o fim da Primeira Guerra Mundial, posterior a conquista dos territórios na China. Devido à saúde debilitada do imperador, o sistema bi-partidário entre a oligarquia japonesa e o partido democrático permitiu que a Era Taishou fosse uma era de intenso liberalismo, conhecida como “Democracia Taishou”. No entanto, o governo não pôde conter as intensas contradições sociais do país pós-guerra, que gerava altas inflações e fazia surgir aqui e ali revoltas de grupos de trabalhadores inspirados no Socialismo e Marxismo. Logo então, sem propor reformas políticas e sociais profundas, há um fortalecimento do militarismo japonês e endurecimento contra qualquer movimento liberal, especialmente o de esquerda. Isso culmina no fortalecimento da Lei de Preservação da Paz, em 1925, proibindo os proletariados de se organizarem e fazerem greves, e na prisão de mais de 1600 pessoas relacionadas a partidos e movimentos de esquerda suspeitas de infligirem O Decreto de Ordem Pública em 15 de Março de 1928.

            Num período curto de tempo, os japoneses conseguiram assimilar e amadurecer muitos conceitos da literatura européia em suas obras. Mas na Era Shouwa, a promessa de que o avanço tecnológico e a felicidade não representava mais o pensamento do homem do início do século foi substituído por uma outra realidade: o ser humano oprimido e frágil na nova sociedade. O capitalismo surgia, anulando a vontade e se aproveitando da classe operária. Surge então uma corrente literária que visava resgatar o caráter social do ser humano e liberá-lo desse sistema opressor: a Literatura Proletária.

A Literatura Proletária opunha-se ao pensamento literário anterior de uma visão realizada e auto-condescendente no próprio universo e interpretavam a situação do indivíduo como “a desintegração do ego moderno como decorrente do desmoronamento da classe burguesa, inclusive intelectual” e decidiram como meta literária “integrar-se à consciência da classe proletária, almejando a reunificação da humanidade através de uma reestruturação social” (Shimon 2000 pg. 26).

Foi no Bungei Sensen (文芸戦線- Frente Literária), periódico em 1924, em que a Literatura Proletária se iniciou como movimento. Surgiu como movimento realista-objetivo ligado ao naturalismo iniciado por escritores da classe operária (Shimon 2000, pg.31). Contestavam os valores morais como casamento monogâmico e a propriedade privada; lutavam por uma literatura revolucionária política e social. Como objetivo de harmonizar arte e vida real, optam por uma literatura próxima a confessional, focando-se na denúncia das mazelas do sistema capitalista, a divulgação dos ideais socialistas e marxistas, e, especialmente, a vida miserável das classes operárias.

Com a intensidade da opressão que parte de um governo cada vez mais militarizado, o que gerou pânico dentre os intelectuais, os integrantes do movimento seguiram para a clandestinidade, sendo perseguidos e torturados. Com a opressão mais intensa, os integrantes desse movimento tiveram que se “retratar” no fenômeno conhecido como tenkou (conversão ou reorientação). O movimento como um todo deixa de existir, convertendo-se em uma literatura voltada a reflexão e mudança de opinião.

Características da Literatura Proletária

São características principais da Literatura Proletária:

  • Propagação dos ideais socialistas e marxistas;
  • Descrição objetiva da realidade – uma aproximação mais subjetivista ou intuitiva atrapalharia a propagação e a interpretação clara dos ideais socialistas e marxistas, por isso nas obras são feitas uma descrição mais próxima possível do real;
  • Denúncia, em caráter próximo ao confessional, das más condições de trabalho, das injustiças cometidas contra a classe operáriaos escritores da Literatura Proletária eram classe operária de alguma forma. Por isso, todos eles foram testemunhas de toda a forma de maltrato contra os proletários.

Hayama Yoshiki

            Hayama Yoshiki (1894-1945), natural de Fukuoka, abandonou a faculdade de Waseda e serviu como marinheiro de baixa patente por alguns anos até sair por causa de ferimentos. Depois disso, enquanto passava de trabalho a trabalho, lançou-se no movimento dos trabalhadores. Começou a escrever na cadeia e recebeu reconhecimento da literatura proletária pelas suas duas obras: A prostituta2 (淫売婦- inbaifu, em 1925) e A carta dentro do barril de cimento (セメント樽の中の手紙-sementodaru no naka no tegami, em 1926). Diferentemente dos outros escritores proletariados, Hayama escreve suas obras com sentimentos mais reais e humanos, o que valeu a sua obra seguinte As pessoas que vivem no mar3 (海に生くる人々 – umi ni ikuru hitobito) ser dita como obra prima da Literatura Proletária.

Tradução: “A carta dentro do barril de cimento”

Matsudo Yozou estava abrindo o cimento. Nenhuma outra parte do corpo tinha algum destaque especial, mas os fios de seu cabelo e aqueles abaixo de seu nariz estavam cobertos de cor cinza por causa do cimento. Ele colocava o dedo no nariz porque queria remover o cimento que fazia com que os pêlos se parecessem com vergalhões de concreto enrijecidos. Embora quisesse tirar o cimento, não tinha muito tempo para levar o dedo ao nariz: o misturador de concreto expelia cerca por minuto 30 metros de concreto por vez.

Finalmente, enquanto prestava atenção às próprias narinas, às 11 horas– embora nessa época ele tivesse apenas dois intervalos, almoço e o intervalo das 3 horas, ele não pôde levar a mão ao nariz, pois não tinha tempo: tinha ido limpar mais um misturador, já que não tinha fome na hora do almoço – não limpou seu nariz. O nariz dele parecia endurecido com um nariz artesanal de gesso.

Perto do fim de expediente de trabalho, uma pequena caixa de madeira apareceu de dentro do barril de cimento que ele movia com suas mãos completamente exaustas.

“O que deve ser isso?”, pensou com estranheza. Mas não estava dando muita atenção a tal coisa. Com uma pá, pesou o cimento no contêiner. E depois, assim que esvaziou o cimento do contêiner para o barco, voltou-se logo em seguida para abrir essa caixa de cimento.

“Espere aí. Não tem como uma caixa de madeira aparecer de dentro de barril de cimento!”.

Yozou catou a pequena caixa e jogou dentro do bolso da frente do seu macacão. A caixa era leve.

“Num parece ‘te’ dinheiro nela, é bem leve.”

Ele, sem tempo para pensar, teve que esvaziar outro barril e medir novamente no contêiner seguinte.

O misturador começou a girar. O concreto acabou e chegou a hora de encerrar o expediente.

Yozou lavou as mão e a cabeça provisoriamente com a água da mangueira instalada no misturador. Depois amarrou sua caixa de almoço no pescoço e enquanto pensava especialmente em se fartar, ia embora em direção as casas enfileiradas­1. A estação de energia havia sido construída há oito minutos dali. A montanha Ena se erguia na noite escura, completamente branca coberta de neve. Seu corpo começou a sentir a frieza de todos os filetes de suor que pareciam começar a gelar. Abaixo dos seus pés, por onde passava, as águas do rio Kiso envolviam bramindo as espumas brancas.

“Humpf! Num agüento mais. Minha mulher vai me encher de novo…” Se sentia completamente decepcionado ao pensar na esposa, que vive parindo sem parar, no bebê que vai nascer só para sentir frio, e no monte de filhos.

“De uma diária de 1 Yen e 90 centavos, comemos dois volumes de arroz de 50 centavos e com 90 centavos nos vestimos, vivemos. Que desgraça, como vou conseguir beber!?”

Mas, de repente, ele se lembrou da pequena caixa que estava dentro do seu bolso e raspou o cimento grudado nela atrás da calça.

Não havia nada escrito na caixa. Mesmo assim, estava fechada com pregos. “Mas, que estranho… Por que diabos está com esses pregos?!”

Ele bateu a caixa em cima de uma pedra. Mas, como a caixa não tinha quebrado, sentiu que deveria pisar com toda a força do mundo e pisou desesperadamente a caixa.

Então, de dentro da pequena caixa que ele havia catado, saiu um pedaço de papel envolto em um trapo. E nesse trapo estava escrito isto:

“Eu sou uma operária que cose sacos de cimento da empresa Cimento N. O meu namorado encarregava-se do trabalho de colocar as pedras dentro do esmagador. Então, na manhã do dia sete do mês de outubro, quando colocava uma imensa pedra, ele caiu dentro do esmagador junto com ela.

Os nossos amigos tentaram ajudar, mas, como se estivesse se afogando na água, foi afundando embaixo da pedra. Depois, a pedra e o corpo do meu namorado se despedaçaram juntos, se transformando em minúsculas pedras vermelhas e caiu em cima da correia. Essa correia foi parar no cano de pulverização. Lá eles se encontraram com barras de ferro, em inúmeros pedacinhos, e enquanto blasfemava em um som ruidoso, era triturado. E depois queimado e transformado perfeitamente em cimento.

Tanto os ossos, quanto a carne e o espírito, viraram pó. O meu namorado todo virou cimento. A única coisa que sobrou é este trapo de uniforme. Eu costurei o saco onde meu namorado está.

O meu namorado virou cimento. E eu, no dia seguinte, escrevi esta carta, e coloquei dentro desse barril.

O senhor é um operário? Se o senhor for um operário, responda e se compadeça de mim, por favor.

Esse cimento dentro do barril será usado para quê? Eu gostaria muito de saber.

Qual deve ter sido o preço desse cimento do barril? Além disso, de que maneira vai ser usado para as pessoas? O senhor é quem faz o reboco? Ou o arquiteto?

Não agüentaria ver meu namorado virar chão de corredor de teatro ou uma grande mansão. Mas se for assim eu quero poder impedir! O senhor, se for um operário, não use este cimento em tal lugar!

Não, ele é bom. Use em qualquer lugar, por favor. Em qualquer lugar que o meu namorado seja enterrado, ele com certeza fará um bom serviço. Não me importo, pois ele era uma pessoa que agüentava qualquer ambiente, com certeza fará o trabalho apropriadamente, sim.

Ele era uma pessoa boa e gentil. Era uma pessoa máscula e resistente. Ainda na sua plena juventude. Acabara de completar 26 anos. Eu não sabia de que maneira ele me amava. Ao invés de vesti-lo com um kimono fúnebre, eu o vesti com o saco de cimento! Eu não o coloquei no caixão, eu o coloquei no forno de mistura!

Por que eu estou enviando ele? Porque era pra ele ser enterrado no leste, oeste, perto, longe.

Se o senhor for um operário, responda pra mim, por favor. Em troca disso, eu te dou o trapo que meu namorado estava usando. É isso ai que está envolvendo esta carta. Nesse saco, estão enterrados, bem firmes, o pó de pedra e o suor dele. Ele, com este uniforme de trapo, está de alguma maneira me abraçando.

Eu peço, por favor. Se não for muito incomodo ao senhor, me avise, por favor, a data em que vão usar o cimento, o endereço detalhado, que tipo de lugar. Tome cuidado o senhor também. Adeus.”

Matsudo Yozou, lembrou-se do alvoroço fervilhante das crianças.

Enquanto lia o endereço e o nome no final da carta, tomou com força num só gole o saque que tinha posto na sua xícara de chá.

“Me deu muita vontade de beber. Só de ‘le’ isso me deu vontade de ‘ve’ se quebro alguma coisa!” gritou com pavor.

“E eu vou agüentar você bêbado e briguento? Vá dar um jeito nessas crianças” disse a esposa.

E ele viu seu sétimo filho na barriga grande de sua mulher.

Janeiro do 15º ano da era Taishou

 

Análise de “A carta dentro do barril de cimento”

            A obra é iniciada pela personagem Yozou, um operário simples e bruto, que trabalha mecanicamente em sua fábrica abrindo e descarregando barris de cimento até encontrar, por acaso, uma pequena caixa. Nela, encontra-se uma carta cujo personagem irá centralizar a atenção de todo o conto. Um jovem rapaz, sem nome, que morreu dentro do triturador de cimento e foi moído a ponto de misturar totalmente com o fruto de seu trabalho. A história desse jovem é narrada pela sua namorada, autora da carta, que deseja, além de contar sua triste história de “enterrar” seu namorado em um barril de cimento, deseja saber onde ele será usado.

            No início do conto podemos observar uma ironia, que se completará tão logo soubermos o destino do jovem rapaz. Yozou trabalha a tal ponto que seu corpo é coberto por cimento, os pelos da narina iguais a vergalhões. Uma metáfora que implica na transformação do operário em seu produto de trabalho: objetificação do ser humano. Transformação esta que tristemente acontece para o pobre rapaz que, impossível de ser salvo do triturador, acompanha o processo de fabricação de cimento até não se distinguir do pó a não ser apenas pelo tom vermelho de seu sangue. Essa metáfora engloba, ao mesmo tempo, a denúncia das condições perigosas de trabalho operário e o alerta ao operário, que, dentro do sistema burguês, acaba se tornando tão ou menos valorizado quanto o próprio produto que fabrica.

            Apesar de testemunhar a tragédia de seu amado, a namorada decide escrever os fatos que se sucederam detalhadamente, incluindo sem censuras a brutalidade tal como ela viu e, ao longo da carta, observa-se uma interessante transformação dessa personagem. Ela narra como uma vítima das circunstâncias e desejosa de pena alheia, não querendo a humilhação do namorado servindo a burguesia, representadas na figura do teatro ou mansão. No entanto, ela muda de idéia, ganha mais vitalidade quando observa que seu namorado possuía inúmeras qualidades quando era vivo e que, mesmo morto, ressoaria essas qualidades no material no qual se transformou. Essa mudança apresenta a classe operária como passiva e vítima transformando-se em uma entidade forte e competente, com valor maior que a matéria que produz: seu corpo, apesar da “trituração” que seu corpo sofre na luta entre as duas classes, burguesa e operária, a sua presença é onipresente em qualquer parte da sociedade.

            O conto termina com uma mensagem para o futuro da classe operária. Após terminar a leitura da carta, Yozou se sente enfurecido e decide beber pra descontar sua raiva em algo, mas sua esposa o recrimina, já que ela não o agüentaria bêbado e que ele também tomasse conta das crianças. E ele olha para a barriga grande de sua mulher. Essa pequena cena, em menos de 5 linhas no fim do conto, assemelha-se a um chamado de despertar: atitudes apenas reativas não funcionam, é preciso pensar.

            Podemos então agora estabelecer a função de cada personagem deste conto dentro da visão da Literatura Proletária:

  • O jovem rapaz morto no triturador – figura do operário comum que engloba na sua imagem toda a classe operária, oprimida e usada cruelmente;
  • A namorada – figura que funciona como a transformação da consciência da classe operária, emissora da mensagem marxista e socialista que denuncia a situação do operário e o seu verdadeiro valor;
  • Matsudo Yozou – a figura do operário comum, que ainda sofre as mazelas da própria classe e vive na pobreza. Atua como o receptor da mensagem: a classe ainda não ciente de seu próprio valor e de sua presença na sociedade.

Como uma última observação dessa análise, o toque sentimental (a namorada que narra o próprio testemunho da morte do amado) dado por Hayama acrescenta um valor mais unificador. O uso de um drama diário de uma fábrica para narrar os valores socialistas não surtiria o mesmo efeito se não tivesse sido contado através de uma carta por alguém muito próximo a vítima. Isso gera um fluxo de movimento linear (Namorada – rapaz morto →Yozou) que cobre uma área de distância grande entre duas fábricas, além de uma ligação emotiva muito forte (Namorada→rapaz morto = Yozou→filhos). Ou seja, ao mesmo tempo em que conecta vidas distantes, estreita os laços mais próximos e isso desperta a empatia do leitor. Por isso, como conto que desejasse despertar a consciência de classe operária e obra literária, foi bem sucedido.

Processo de Tradução   

A tradução de “A carta dentro do barril de cimento” não foi um processo muito difícil em geral. Excetuando as falas da personagem Yozou, o conto como um todo se apresenta como a língua japonesa padrão. No entanto, houve uma certa dificuldade na palavra nagaya (長屋) que literalmente significa “casas enfileiradas”, mas a palavra em si não faz jus a imagem que ele precisaria representar ao leitor. Essa palavra em si representa a pobreza na qual Yozou vive em sua família. Se fossemos procurar uma palavra que remetesse a algo semelhante a nagaya em língua portuguesa, que pudesse representar o mesmo nível de pobreza e condição social, “cortiço” poderia ser uma opção. No entanto a dinâmica de vida de um cortiço e a sua forma como moradia não representaria bem o tipo de vida do japonês operário no início do século XX. Por isso utilizou-se o uso de notação ao fim deste trabalho para que o leitor pudesse ter uma imagem mais real de um nagaya.

As verdadeiras dificuldades foram nas falas de Yozou por duas razões. A primeira porque, na qualidade de um trabalhador operário simples, sua fala é a de uma língua japonesa vulgar. As mudanças sonoras de “ai” para “ee” (nas palavras “yopparaitee naa” e “mitee naa”, na sua última fala) criam certa estranheza para alguém não muito acostumado a ler esse tipo de expressão. A segunda razão reside exatamente por ser um ponto crucial de entendimento do conto como um todo. É só através das falas finais de Yozou e sua esposa que se pode completar o processo descrito antes na análise: o fluxo de movimento da mensagem que chama os trabalhadores para o despertar. Porque ao se entender a reação de Yozou é que se percebe a sua posição como operário ainda não consciente de sua classe, que, ao compreender os primeiros lampejos de sua situação decide apenas reagir instintivamente com violência. E num processo externo, é chamado a atenção que tala atitude não levará a nada, é preciso fazer algo diferente. Faz-se necessário olhar para o futuro.

Notas finais

Como trabalho de análise literária, este trabalho ainda se encontra incompleto, pois seria necessário um maior aprofundamento dentro da Literatura Proletária e da obra completa de Hayama Yoshiki. Ainda há elementos dentro deste conto que poderiam tornar a análise mais interessante, como por exemplo, a sublimação do rapaz, representado num trapo de pano abraçando a caixa como o próprio rapaz abraçando a namorada. Essa sublimação quase sobrenatural vai contra a visão objetiva da realidade. Uma pesquisa mais profunda poderia mostrar outras influências mais particulares a Hayama do que à Literatura Proletária. Ou mesmo uma qualidade artística particular natural ao autor.

Como tradução, percebe-se que é muito difícil passar a intenção do autor, especialmente na descrição da realidade e na fala dos personagens. Visto que ora não se é capaz de encontrar palavras que possam denotar fielmente algo ou mesmo algo no português ao equivalente a fala de Yozou em linguagem informal japonesa, sem correr riscos de que fique exagerado demais ou incompreensível para os leitores de forma geral.

Notas

  1. 長屋(nagaya) – Casas enfileiradas, delgadas. Moradia dos trabalhadores que as alugavam. Muito simples: 2 quartos, a cozinha é de frente para a entrada. Não eram permitidos banhos em ofurô devido ao risco de incêndio. O banheiro era fora da casa e a água retirada de um poço comunitário.
  2. Tradução própria.
  3. Tradução própria.

Bibliografia

KOBAYASHI, Ichirou. Masutaa Nihon Bungakushi.Tóquio: Kaai Shuppan, 1995.

SHIMON, Meiko. Concepção estética de Kawabata Yasunari em Tanagokoro no Shosetsu. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2000.

WAKISAKA, Katsunori (Coord.). Michaellis: dicionário prático japonês-português.São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão, 2003.

Mídias Eletrônicas

Sobre a Literatura Proletária

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%83%97%E3%83%AD%E3%83%AC%E3%82%BF%E3%83%AA%E3%82%A2%E6%96%87%E5%AD%A6. Acessado em: 01/07/2011

Sobre Hayama Yoshiki

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E8%91%89%E5%B1%B1%E5%98%89%E6%A8%B9. Acessado em: 01/07/2011

Texto original “Semento daru no naka no tegami”

http://www.aozora.gr.jp/cards/000031/card228.html. Acessado em: 01/07/2011.

Resenha: História da Cultura Japonesa, de José Yamashiro (2ª edição, editora Ibrasa,1986)

Uma parte que eu estava ansioso para iniciar neste blog é justamente por onde começa a jornada de todo estudante: os livros. Apesar da prolífera fase que foi o centenário, é ainda mais fácil fazer uma pesquisa na internet e acessar sites em inglês ou japonês para aprender mais a fundo sobre a cultura japonesa. No entanto, não quer dizer que não encontremos livros sobre o assunto nas prateleiras brasileiras, ainda que escassos. É necessário muitas escavações, mas as recompensas são boas.

A resenha desse post é sobre  livro “A história da cultura japonesa”, de José Yamashiro, um dos primeiros jornalistas nikkeis a se destacar nessa área tendo escrito além de outros para a atual Folha de São Paulo, foi também um dos primeiros cidadãos nipo-brasileiros a entrar em contato diretamente com grandes personalidades da vida pública brasileira. Atuou como escritor ao se dedicar a contar a história do Japão em seu livro “A pequena história do Japão”, em 1950, edição própria, no momento em que nenhum pesquisador se dedicaria a esse trabalho, o que foi um marco na publicação nacional. Posteriormente ele se dedicaria a outras publicações que se dedicassem a outras áreas sobre o Japão como “Choque Luso no Japão dos Séculos XVI e XVII”(Ibrasa, 1989), “História dos Samurais” (1987, Aliança), “Japão Passado e Presente” (1986, Ibrasa), “Okinawa: uma ponte para o mundo”(1997, Cultura).

Em “História da cultura japonesa”, José Yamashiro, que deixa claro nas notas explicativas que não é um historiador, nos traz um apanhado muito geral sobre 2600 anos da civilização japonesa abordando desde o perído pré-histórico até o fim da era Shouwa (1926-1989). Sempre de uma maneira clara e objetiva, tendendo às vezes para a paixão pela cultura japoensa, Yamashiro narra cada avanço cultural japonês pontuando históricamente cada fato, o que enriquece também qualquer leitor que desconheça a história daquele país.

“Apanhado” é um adjetivo muito justo para este livro, que com um pouco mais de 200 páginas tenta abarcar 2 milênios de história japonesa. Não foram poucos os momentos em quem Yamashiro procura se aprofundar mais detalhadamente em algum aspecto cultural japonês importante para no momento seguinte ser impedido pelo o surgimento de outro, infelizmente .

O livro nos tráz inúmeras referências literarias e artísticas e também filosóificas e políticas, justificando a aquisição dos pensamentos e conceitos que formaram a nação japonesa sempre fechando com um nó entre fato histórico e exemplos, sejam curtas citações, traduções ou algumas fotos.

Apesar de limitado pelo tamanho do assunto que queria abordar, Yamashiro cumpriu o objetivo proposto a si mesmo, tornando o livro, ao mesmo tempo, profundamente amplo para os curiosos e interessados em conhecer mais sobre a formação da cultura japonesa, como amplamente profundo para pesquisadores mais experientes.

Infelizmente, o livro não se encontra mais disponível para vendas em lojas comuns, sendo mais encontrado em sebos.

Prêmio Top Blog 2011

Ogenki desu ka, mina-san? Bem, se olharem a esquerda do blog vão ver que ele está participando do Prêmio Top Blog 2011.  Peço o apoio de vocês para que votem, não para vencer mas para que o blog seja cada vez mais divulgado. Meu sonho é que, com mais visitantes, mais pessoas poderão divulgar suas experiências ou estudos aqui, o que nos fará falantes, pesquisadores, amantes de língua japonesa muito maiores do que somos agora.

Por isso, お願いいたします!

Mata!

Dicas: Material Auxiliar de Estudos – DICIONÁRIOS

Olá mais uma vez! Pretendo voltar às traduções em breve ou algo mais voltado para a literatura. Enquanto isso, vou continuar seguindo com a linha de posts que venho fazendo aqui.

Uma coisa que sempre me incomodou no início dos estudos era justamente o fato de não saber o que pudesse me ajudar a me desenvolver em língua japonesa, especialmente os dicionários. Muitos alunos me perguntam sempre sobre os dicionários e geralmente eu não tenho muito o que dizer, já que, como alguns sabem, não temos muitas opções. É bem conhecido o Michaellis, bem prático e com certeza o mais vendido (explicado mais adiante). Mas existem outros instrumentos por aí, alguns de graça, outros caros mas muito úteis. Outros muito caros, bons e não tão práticos. Eu falarei sobre alguns conhecidos por mim e farei umas observações sobre a qualidade e se o investimento pode valer ou não. Os valores dados aqui são aproximados e podem variar dependendo da loja.

Dicionário Japonês-Português (porto editora, R$200,00)

Preciso admitir uma coisa: nunca usei esse dicionário. Ele ficava dentro do armário do departamento de língua japonesa, mas geralmente, quando pesquisava algo, eu pegava e lia de relance e minha impressão não era boa. Primeiramente era todo romanizad. Segundo: não se aprofundava muito nas palavras. E também era grande demais, muitíssimo pesado.Como eu já tinha o Michaellis, preferia escolher um parecido com  o meu. Avaliando agora com mais crítica, não creio que se pudesse escolher eu o teria comprado. Para se aprofundar em língua japonesa, é necessário sem dúvida ver ideogramas. Pelo valor, se poderia investir em outro instrumento bem mais útil.

Michaellis Dicionário Prático português-japones e michaellis dicionário prático japonês-português (Michaellis, R$60,00 cada)

São o que eu sempre recomendo. Práticos e baratos, apesar de serem dois livros e não um como geralmente é para outros idiomas. Mas compensa pela variedade de palavras, pelo uso de ideogramas e pela quantidade de exemplos e significados por  verbete. De fato não era muito bom para se andar por aí pois pesa demais na bolsa (e isso falando de apenas um), mas ainda assim valia muito à pena. Minhas únicas reclamações é quanto a qualidade da edição em comparação a outros dicionários da editora. Já fiz curso de alemão e o dicionário Alemão-Português e Português-Alemão erá muito prático pois era cheio de refrências, explicações gramáticais (com muitos exemplos práticos) abordando semelhanças e variações de significados para preposições, ou mesmo referências para verbetes com significado parecido (ou significados parecidos para verbetes diferentes),etc. Isso em uma quantidade muito grande para um dicionário de bolso. Além disso, não havia ecplicações para a diferença entre as variações de uma mesma palavra com kanjis diferentes. Não era fácil entender a diferença, por exemplo, de KAWARU (変わる、換わる、代わる、替わる). Mas mesmo assim, comparando com outros dicionários, a relação custo benefício vale muito a pena.

Dicionário Japonês-português Romanizado – Noemia Hinata E Dicionário português-Japonês Romanizado – Noemia Hinata(Diversos,R$200,00 cada)

É o dicionário que, se eu pudesse, teria comprado para mim antes das minhas aulas. Além de ser escrito em japonês como em português, ele é acompanhado com a indicação de tonalidade para cada verbete. O que é ótimo quando está aprendendo, quer saber palavras novas e elas não estão em um CD. Porém ele é muito caro para a quantidade de verbetes e não é tão aprofundado em signficação. Mas se você puder investir, vale a pena.

Dicionário JaponÊs-português (Rideel, R$14,00)

Muito pequeno para o investimento. Se assemelha mais àqueles guias de viagem de tão simples, mas não possui as frases prontas típicas do modelo.Todo romanizado. Vale mais para quem tem curiosidade no idioma mas ainda não quer se arriscar profundamente.

Nintendo ds (R$320,00)

Não é um dicionário, mas a possibilidade de usar um R4 (uma espécie de adaptador para um cartão de memória SD permite que você baixe jogos da internet e use como: dicionário, curso, leitura, jogos, etc. Eu uso na maioria das vezes como dicionário de KANJI, pois é muito prático e rápido usar a tela de toque para escrever o kanji. Se souber inglês, você pode digitar as palavras e descobrir o significado em japonês. Além de poder ser bem útil para aprender kanjis novos, praticar escrita e leitura. Há um jogo que permite que você pratique a leitura de textos também. Embora eu não tenha procurado há um certo tempo por mais novidades, com os arquivos que eu tenho eu consigo me virar muito bem. É um equipamento muito barato em relação aos benefícios que ele traz. Muito recomendável para aqueles que já vão sair do básico do japonês.

Aqui vai a lista de arquivos que você pode procurar na internet oara download e usar no seu Nitendo DS:

TADASHII NIHONGO DS: jogo com muitas atividades de interpretação e textos. Bom para alunos avançados.

KANJI SONOMAMA RAKUBI JITEN: dicionário de japonês-inglês, japonês-japonês e de Kanji. Super prático e muito bom para qualquer estudante.

KAGEYAMA METHOD TADASHII KAKITORIKUN: Um curso de Kanji na palma da mão. Ensina todos os kanjis e kanas, dividindo pelos seguimentos de ensino no Japão. Ótimo para todos os níveis de estudantes.

Update : JWPCE

Quase me esqueço do meu grande salvador enquanto não tinha o Nintendo DS: o JWPCE. É um dicionário digital passível de download e grátis. Ele é todo em inglês, mas permite que você possa usá-lo também como dicionário de Kanji. Fácil de baixar, dá um pouco de trabalho para usar, mas é extremamente eficiente ao usá-lo para ler palavras em sites somente copiando e colando direto no programa. Serve como editor de textos em japonês, o qual confesso que nunca usei porque é muito mais prático você instalar o idioma japonês em sua máquina e digitar tudo no word.

aqui vai o link.

http://www.physics.ucla.edu/~grosenth/jwpce.html

Porcure por download e aproveite.

Você conhece algum dicionário que ache muito útil para estudar japonês? Comente deixando o nome e a editora do livro.

Mata, Mina-san!

Caligrafia Japonesa – Shodo 書道 (shodou)

Olá novamente. Esse post é inspirado num exercício que venho praticando com alguns alunos em um curso onde eu trabalho.

O Shodo (書道‐しょどう‐shodou, literalmente “o caminho da escrita”) é arte da escrita desenvolvida ao longo dos séculos no Japão. Sua origem remonta a China, durante a dinastia Han (202 a.C. a 220 d.C.), quando a caligrafia começou a ser valorizada como arte. Desconsiderando os materiai usados, essa arte é muito simples: constitui-se basicamente em escrever uma letra ou várias, que representam um trecho de poema ou provérbio, com tinta preta em um papel branco.

No Shodo é considerado como padrões estéticos a expressividade do artista: se seus traços são vigorosos ou suaves; sua criatividade; seu sentimento expresso na forma do ideograma.

Os ideogramas usados no Shodo variam muito, mas evita-se usar temas negativos. Gerakmente usa-se quadros de Shodo nas lojas e restaurantes em lugares bem visíveis ou em salas de chá, no tokonoma, uma divisão do aposento onde geralmente se coloca um quadro de Shodo acompanhado de uma vaso enfeitado com Ikebana. Usa-se temas variados, que podem acompanhar a estação vigente e que atraiam positividade e inspirem o ambiente.

Existem vários estilos. O tensho e o reisho e reproduzem a forma de escrita primitiva dos ideogramas. Esses estilos são reproduzidos nos carimbos japoneses que servem como assinatura no Japão. O estilo kaisho se assemelha com a forma com que escrevemos os kanas e os kanjis com lápis pois são mais retos e traços mais consistentes. Os estilos gyosho e sosho são  mais cursivos, onde é mais valorizado o estilo próprio e a criatividade do artista.

Os materias são: a tinta, que pode ser nanquim mas tradicionalmente é usado carvão em óleo vegetal (o sumi, usado para a pintura Sumi-e); o pincel, cujas cerdas são mais consistentes e são feitas de pelo de coelho, cavalo, rena, carneiro ou texugo; e washi, papel japonês feito com fibra de bambu, palha ou bagaço de bananeira.

Falando por experiência própria com os meus alunos, é uma arte muito difícil. Requer muita concentração e prática. A úniva vez que tinha “tentado” praticar Shodo foi no meu primeiro ano de faculdade, há uns 6 anos atrás. Os princípios eram fazer sem apoio do cotovelo e ser segurar suavemente no pincel, de modo que não se usasse muita força ao escrever. Depois desse tempo todo, decidi usar esse conhecimento mínimo para praticar com os meus alunos de maneira recreativa e para fixar o katakana. O sentimento de se conseguir fazer uma escrita bonita, mas bem longe da qualidade de um artista de Shodo, é muito satisfatória. Aliás, recomendo a todos. Recomendo que um dia tentem fazer um curso de Shodo. Aqui no Rio de Janeiro, eu sei que custa por volta de R$500,00 por mês para 2 encontros apenas. Infelizmente, é um investimento caro pra mim, num horário que não é conveniente. Por isso decidi repassar algumas experiências minhas com meus alunos, assim como também onde comprar os pincéis e material, o que qualquer um já deve ter visto que deve ser muito difícil achar por aí. Com isso, acho que fica mais fácil de um noção e pelo menos colocamos em prática três conceitos japoneses muito difundidos nas artes japoneses: paciência, suavidade e senso estético.

Primeira dica: comece tudo de novo. Você vai se alfabetizar em Shodo, não que a escrita seja diferente, mas o instrumento é. Por isso, faça traçados retos na horizontal e na vertical, procurando manter consistente a grossura. Depois, procure repetir o mesmo mas terminando fino e suave ao final.

Segunda dica: mantenha o cotovelo afastado da mesa, não o apoie e segure o pincel com as pontas dos dedos, não envolvendo ele como se fosse um lápis. Procure segurá-lo afastado das cerdas, bem afastado. Preferencialmente a partir do meio em diante, na direção inversa das cerdas. Embora pareça conveniente escrever como se fosse um lápis, a posição é propícia à muita força, e nós queremos suavidade e delicadeza ao escrever. E a posição dos dedos conta muito para isso.

Terceira dica: comece bem suave mesmo. É bem conveniente apertarmos forte o pincel para conseguirmos uma grossura consistente da letra, por que é fácil. No entanto tem que ter a grossura que você determinar. Por isso, procure tentar práticar com grossuras variadas, variando de força, começando bem suave para você ir medindo o quanto você domina a leveza no pincel. Quando tiver controle da sua força, escolha a grossura do traçado que melhor convier ou a que você achar mais bonito. E tome cuidado ao usar a força: pode estragar o pincel.

 A quarta dica veio desse vídeo que encontrei no Youtube a respeito:

Trata-se de um vídeo demonstrativo de aulas de Shodo por DVD. Observem que o artista não banha totalmente as cerdas, só a metade. Isso garante a “dureza” das cerdas na hora da escrita, deixando o traçado mais firme.

Reparem também que há variações na força do traçado.

Abaixo seguem links sobre mais informações sobre Shodo. Os primeiros são de dois sites de compra. O Casa do Artista vende pincéis de Sumie são usados para a escrita japonesa. Também vende kits com vários pincéis e tintas. O segundo, o AGS Kung-Fu vende também os pincéis em separado, mais baratos, apesar de a frete ser mais cara.

Por hoje é só.

Mata né!

http://www.acasadoartista.com.br/

http://www.agskungfu.com.br

http://www.alexandrasolnado.com/leclubzen/caligrafia.htm

http://www.culturajaponesa.com.br/htm/shodo.html

http://www.bugei.com.br/bugei/mentais/shodo.asp

Dicas para os inicantes

Olá novamente. Aproveitando o post anterior, este será sobre dicas de estudo de língua japonesa para iniciantes.

Como professor de japonês há 3 anos, devo dizer que a coisa mais dolorida na minha profissão é a perda dos alunos. Diferentemente de um professor de inglês que perdeu um aluno, o professor de japonês não deixa apenas de ver mais um aluno empolgado com cultura japonesa, geralmente isso pode significar a perda de um 1/5 e às vezes a perda de ¼ de uma turma toda, o que em termos financeiros pode ser mortal para um profissional da área caso mais alunos também saiam, o que é o fim de uma turma. Os motivos que levam o aluno a sair são vários e muitos deles geralmente nada tem haver com o professor, mas um deles é bem sério: quando o aluno tem dificuldades para aprender.

Isso é completamente normal, em qualquer lugar com qualquer assunto. Cada um aprende no seu ritmo. Mas é preciso garantir que possa absorver mais de uma maneira mais proveitosa, no mínimo de tempo possível. Por isso, algumas dicas:

Ler e Escrever (com significado)

Aquilo o que mais apresenta dificuldade ao aluno de japonês iniciante é justamente aquilo que lhe desperta mais interesse no idioma: a escrita. Não se pode negar que é bem difícil decorar 46 caracteres de 2 alfabetos, além das variantes sonoras mais as contrações que podem existir. E ainda há sons extras no segundo alfabeto de contrações que não existiam no outro. É complicado, mas não impossível, nem tão difícil.

O que o aluno iniciante de japonês precisa antes de mais nada é ler tudo aquilo que ele está aprendendo. O que geralmente o aluno iniciante peca é que ele procurar decorar cada letra pelo som. Ele deveria decorar pelos significados produzidos pela combinação dos sons. Se você escrever o KA diversas vezes, vai martelar na sua cabeça “KAKAKAKAKAKAKA”, e vai chegar uma hora que você irá se exaurir e não absorver mais nada. Se você agora começar a escrever diversas palavras com KA (SAKANA – peixe; KASA – guarda-chuva, SUIKA – melancia, etc.), você vai decorar o som e terá várias imagens mentais com as quais em momento de dúvida poderá associar e lembrar com mais facilidade o som. Se fizer isso, será muito mais relaxante e aprenderá vocabulário para as próximas aulas, além de aproveitar mais o tempo porque você escreverá umas 3 palavras com 5 letras diferentes ao invés de decorar um som sem sentido nenhum. Caso não esteja se dando bem com palavras aleatórias, tente com números, é muito bom porque você prática os sons contraídos ao mesmo tempo e números é algo que você vai precisar em inúmeras ocasiões do dia-a-dia.

E claro, ler. Procure algo pra ler, que tenha haver com aquilo que esteja aprendendo, no começo é bom praticar com o Jikoshoukai pois é com certeza algo cobrado em algum teste e é a primeira coisa que você tem que fazer ao começar algum relacionamento com algum japonês. E procure ler sempre em voz alta, ouvir a si mesmo é a certeza da qual você não está confundindo nada e memorizar o som. Use os flash cards do post anterior como um exercício desse tipo. Caso não ache viável, veja clipes de músicas que você goste ou simplesmente vá a um site japonês e veja quais hiraganas você compreende, pode ser até que com mais curiosidade você possa entender alguma coisa sobre o assunto.

Exercite os músculos!

Desafio aos iniciantes a falarem KENCHIKUKA (arquiteto) e KAGAKUSHA (cientista) três vezes sem enrolar a língua. Difícil, não? Isso é porque você ainda não está acostumado com os movimentos para cada som no japonês. A fonética japonesa não é muito diferente da nossa, no entanto seus encontros silábicos assustam um pouco, parecendo com trava-línguas. Por isso você precisa ler em voz alta e da maneira mais confortável possível para você, ou seja, relaxado. Um ótimo exercício para isso é música, preferencialmente uma lenta.

Além de você exercitar os músculos, você vai pegar um ritmo de fala mais natural. Caso esteja com a tradução da música, você também adquire mais vocabulário. E, é claro, é bem mais divertido.

Caso você seja um aluno um pouco mais avançado, uma dica que eu dou é ler as partículas com um tom mais baixo do que as palavras anteriores a ela. Normalmente, quando começamos a aprender, o aluno geralmente marca cada partícula bem forte. É como se ele colocasse uma vírgula em cada partícula para ter certeza que ele compreende o que foi lido. Mas isso não deixa a fala mais natural.

Um aluno iniciante leria assim (maiúsculas = tom alto; minúsculas= tom baixo):

Watashi HA uchi DE bangohan WO tabemasu

            Quando ele deveria ler assim:

WATASHI ha UCHI de BANGOHAN wo TABEMASU

 Não pare de ouvir nunca!

Se você tiver tevê a cabo e tiver o canal NHK, deixe ligado enquanto você está cozinhando, lendo alguma coisa, ou estudando. Se tiver um rádio no carro, ouça suas músicas preferidas enquanto vai pro trabalho ou escola. Se gosta de novelas, coloque sua novela preferida para rodar no computador, ininterruptamente, com a janela oculta enquanto conversa com seus amigos ou vê os seus sites favoritos. Faça isso sempre. Mesmo que na entenda nada.

Ao ouvir repetidamente, tudo o que for em língua japonesa, você adestra seu ouvido a absorver cada palavra como unidade. Isso facilita muito ao aprender uma palavra nova e você já tiver ouvido. Vai ser mais fácil memorizá-la. Vai ser mais fácil pronunciá-la. E vai ser mais fácil entender o significado porque se for ouvindo uma notícia ou música, você associará a mais memórias com mais significados. Isso é basicamente o que você fez a vida toda com a língua portuguesa.

O resultado é tão bom que, certa vez eu tive que fechar o arquivo da novela em meu computador porque sem querer eu começava a prestar atenção ao que os personagens diziam e começava a rir sem querer.

Estude SEMPRE!

Embora a dica pareça óbvia, não se enquadra exatamente com a realidade de uma parte dos alunos de curso de idiomas em geral. Muitos aprendem e exercitam um pouco fora do curso. Até é considerado normal em certo ponto por causa da vida que eles levam fora da sala de aula. Se considerarmos um curso de inglês por exemplo, as capacidades de compreensão auditiva e de leitura será exercitadas quase que passivamente se o aluno tiver uma vida cheia de filmes, livros, internet, músicas, etc. Se ele exercer alguma atividade mais ativa, fica mais fácil para ele dominar o idioma com naturalidade. Qualquer atividade ativa no idioma traz progresso. Quer queira ou não, mais cedo ou mais tarde ele irá exercer uma atividade ativa, se o seu idioma for presente na sua vida.

Quanto ao idioma japonês, acontece algo parecido. O problema é que o idioma necessita de mais práticas ativas no idioma do que em outras línguas. Quantos filmes japoneses você vê por semana? Quantas músicas japonesa você ouve no rádio? Certamente se você é fã de anime ou gosta de ver novelas japonesas dirá que os vê mais freqüentemente do que filmes no cinema ou na tevê com certeza isso o ajudará se já tiver um certo domínio, mas se você é iniciante pode ser que não faça muita diferença. Por isso digo e repito: estude sempre, leia com muita atenção e aproveite cada oportunidade e sempre se desafie ,seja com redações, procurando palavras no dicionário, indo em sites só para ver o que consegue entender, o que for. E, o mais importante, o que mais prejudica qualquer aluno iniciante: pratique leitura constantemente durante o primeiro semestre do curso entre cada semestre. A menos que ele esteja aprendendo no Japão, pela pouca exposição aos kanas e kanjis fora da sala de aula, o aluno acaba involuntariamente esquecendo como se lê escreve. Por isso ele precisa se forçar a ler constantemente se não suas horas investidas dentro da sala de aula irão para o lixo. Ainda que ele tenha sido um bom aluno e tenha entendido a gramática, ao voltar a sala de aula ele pode deixar de apreender a matéria por não entender aquilo que está escrito no seu livro ou por ter dificuldades na hora de escrever.

Por isso estude sempre!

Como uma última dica, faça de seu estudo uma coisa prazerosa, sempre procure novas experiências e jamais perca o ânimo. Nada substitui o prazer de aceitar um desafio e ver as habilidades que você ganha ao final da jornada.